sábado, 6 de junho de 2009

De Negomano a Mecula

O mapa moderno do Google
O Mapa actual da reserva do Niassa


Henrique Galvão, escreve :
"Em Negomano estão concentrados e contratados, para nos acompanharem, como carregadores da bagagem e da pró­pria alimentação, e como machileiros para estropiados — cento e vinte indígenas macondes e ajaúas. A maioria é constituída por macondes. São, na generalidade, pequenos e fracos, apesar de seleccionados entre os melhores que se ofereceram. Tenho sauda­des dos meus companheiros do Sul de Angola, magníficos, alegres, incansáveis. A melhor unidade da comitiva é um cabo de cipaios, maconde, pequeno mas atar­racado, a face golpeada como os da sua raça, cheio de brio e aprumo militar, que julga sinceramente que a sua missão supe­rior consiste em tomar conta da minha pes­soa. E segue-me como uma sombra mal me afasto. Os seus olhos namoram as minhas espingardas e creio que daria dois ou três dentes pelo prazer de atirar com elas."

O famoso caçador profissional Teodósio Cabral acompanha Henrique Galvão, vão abatendo elefantes e hipopótamos para dar de comer a tanta gente, vão a pé através da mata, passam pelo regulado de Nantuego a caminho de Mecula.


Henrique Galvão e a sua expedição numa paragem caminho de Mecula

Henrique Galvão, descreve a vida em Nantuego:

"A maioria dos indígenas usa ainda os panos fabricados com casca de árvore. Não têm onde vender os produtos que cultivam — e não têm, por consequência, dinheiro para comprar tecidos. Nem os comercian­tes, os indispensáveis monhés, que vão a toda a parte onde gira uma moeda, se aven­turaram até aqui.

No regulado de Nantuego encontramos rapazes que nunca tinham visto brancos."


A travessia do rio Lugenda


Para além do interesse histórico desta viagem, ao lerem este capítulo da Ronda de África aqueles camaradas que estiveram nos aquartelamentos de Nantuego ou de Gomba e que conhecem muito bem a zona vão recordar aquela África profunda de que fala Galvão.
Aqui fica o link:
http://www.macua.org/ronda/antigoniassa.htm

O homem representante da soberania!

O chefe de Posto de Mecula

Henrique Galvão, disse dele:

O funcionário que aí presidia — santo homem de cabelos brancos e alma friorenta

— era, desde há dezassete anos, o único habitante branco da Serra Mecula...

Constava no mundo dos homens que não estava em perfeito juízo — e que, lá no alto, no seu ninho de águias, falava com os astros.
Com quem havia de falar?... (fim de citação)

Bibliografia: Ronda de África de Henrique Galvão ( 1947 - 1948 )

Henrique Galvão, esteve em Mecula ( 1948 )


No seu livro - Ronda de África, Henrique Galvão escreveu:


O Niassa, também o é — relativamente a uma África mais real, mais verdadeira do que essa que imaginam as pessoas que nunca foram à África. É a Província dos grandes isolamentos e das grandes solidões, das grandes distâncias e dos grandes horizontes. Nenhuma outra dá ao viajante, tão profundamente, a ideia da extensão e profundidade africanas — e em nenhuma outra também a África se mostra mais próxima da África do período lendário, que fez do grande Continente o mais bárbaro armazém de mistérios mundiais.

Em Mupapa encontramos, como uma parede verde, a Serra Mecula. Ergue-se bruscamente na planície, sem ondas de transição que a prometam. É uma corcunda arborizada, de sombras e misté­rios, no alto da qual se estabeleceu, decerto mais por considerações de ordem poética do que por motivos práticos, um posto civil.

Consumimos dez horas, dez longas e fatigantes horas, a subir, sempre a subir, por veredas quase imperceptíveis do gen­tio, a serra de Mecula. E se durante a trepação algum deu ao demo a ideia de lhe chegar ao topo — ninguém deu por mal empregado o esforço, quando se viu no magnífico mirante, daqueles de que se pode dizer que são mirantes sobre o mundo.

Tudo nesta serra recatada e perdida em lonjuras do Niassa se junta para a tornar encantadora: o isolamento quase insular, a deliciosa movimentação do seu relevo, os seus silêncios profundos, uma espécie de virgindade selvagem, difícil, ainda quase inacessível — e, ao mesmo . tempo, os seus quadros frescos, os seus recantos de paraíso europeu, onde não se estranharia encontrar, de repente, uma estrada e automóveis de luxo a rolarem.

A subida é naturalmente difícil. Nada se construiu ou preparou para a facilitar. Há passagens em que temos de servir-nos dos quatro membros, como os bichos. Mas todos os esforços e fadigas são constantemente suavisados pelo encanto do cenário — os vales atulhados de folhas e sombras, janelas entre ramos sobre horizontes azuis, fios de água cantando no silêncio, soleni­dade de penumbras, visões graciosas de antílopes, etc.

O calor é intenso, mesmo sob as ramadas que encobrem o sol por completo — mas a frescura das cores e das penumbras entra pelos olhos e suavisa os ardores da fornalha.

Chegamos ao pico cujo patamar o posto escolheu para sede, às quatro horas da tarde. Marchávamos depois das seis da manhã — isto é, trepávamos, engatinhá­vamos.

E lá no alto — que maravilha... e que desolação!

Que maravilha a dos horizontes!

Tem-se a impressão de que se vê dali uma parte do planeta como se veria do espaço celeste, a milhares de metros da Terra. Uma grande, infinita, planície que se nos afigura lisa como bandeja. E, nessa bandeja os montes dispostos e situados como coisas estra­nhas, móveis, apenas arrumadas para se deslocarem para outros lugares. Não há en­tre eles vales, nem ondas de terreno. Estão ali, puseram-nos ali, como se põem mon­tes de areia ou cascalho num eirado.

Que desolação a presença do homem representante da soberania! Uma casa sórdida, de pau a pique, quase sem cober­tura — e três quase-palhotas igualmente sórdidas, a olharem, pasmadas, para um pau de bandeira nu e torto. Eram a única nota feia, rebarbativa, naquele cabeço de onde se contemplavam maravilhas.

O funcionário que aí presidia — santo homem de cabelos brancos e alma friorenta

— era, desde há dezassete anos, o único habitante branco da Serra Mecula. E du­rante os dezassete anos descera três vezes a povoados de outros brancos. Durante os dezassete anos apenas cinco vezes, incluindo aquela que eu forneci, haviam passado, de fugida, pelo posto, criaturas da sua raça. Não parecia infeliz — mas era evidente que se tinha adaptado à con­dição de solitário e, por consequência, deixara de amar o convívio dos homens. Sentia-se mais perto das estrelas que dos seus semelhantes — e não se queixava — talvez as preferisse. Constava no mundo dos homens que não estava em perfeito juízo — e que, lá no alto, no seu ninho de águias, falava com os astros. Com quem havia de falar? E não é tão natural que se entendesse muito melhor com eles do que com as gentes? Não tenho nenhuma razão objectiva para concluir ou supor que fosse um desiquilibrado. Ao contrário. Apenas verifiquei que era diferente de todos nós — e não para pior.

No Natal anterior o Governador do Niassa, impressionado com a situação deste homem, fizera-o ir à cidade. Rece­beu-o carinhosamente, introduziu-o na sociedade festiva que a quadra amorável reunira, obrigou-a a ver o riso dos homens e a ouvir palavras doces. Mas ele sentiu-se aí mais solitário e desacompanhado do que nos altos da Serra Mecula — e tão deslo­cado que a meio da festa desapareceu. E não parou senão no seu buraco sórdido, no alto de onde se olha para o mundo.

Talvez o seu caso seja muito mais sim­ples do que se julga. Por mim acho natu­ral que uma pessoa simples, de bom gosto, sem tendências mórbidas nem vícios de espírito, prefira contemplar as belas coi­sas que se vêem do alto da Serra Mecula, a ser espectador ou comparsa nas comé­dias dos seus semelhantes, em outros tablados sem cobertura de estrelas nem seduções de horizontes.

Quando lhe perguntei como fora ali ter, respondeu-me simplesmente:— Mandaram-me.

- E porque tem permanecido durante tanto tempo?

- Ninguém pediu para vir para aqui e eu nunca pedi para me ir embora.

Não me atrevi a perguntar-lhe o que sabia da vida e dos costumes das estrelas. (fim de citação)

Texto recolhido do site macua.org - da obra literária de Henrique Galvão - Ronda de África

A história da ponte do Lugenda - Capítulo I

A pedreira


O estaleiro da obra

A armadura de ferro de um pilar

O autor do Projecto:

Barroco, Baltazar António de Morais, nasceu em Vila Flor, em 9/11/1928. Fez a escola primária em Vila Flor. Frequentou o ensino secundário no Liceu D. João III, em Coimbra, os preparatórios de Engenharia na Faculdade de Clássicas de Coimbra (1947/59) e foi Engenheiro Militar e Civil pela Faculdade de Engenharia do Porto e também pela Escola do Exército (1954). Atingiu o topo da carreira, no posto de general e actualmente (1999) é o Presidente da Direcção Central da Liga dos Combatentes. Director do Serviço de Obras Militares do Niassa (Moçambique) onde projectou, calculou e executou algumas pontes e pontões, várias estruturas de construção civil, estudos e infraestruturas de construção civil, estudos e infraestruturas de águas e esgotos.
Dirigiu ainda a construção de uma ponte com cerca de 360 metros de comprimento, com vãos de 36 metros, sobre o rio Lugenda (1963/65).(
fim de citação)

Texto retirado do site: http://www.dodouropress.pt/transmontanos/durienses/B.
As fotos estão publicadas na internet por : Irlando Tavares

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O testemunho de um amigo do Alferes Vieira

A "praia" de Mussoma - vista da ponte do Rio Lugenda


A ponte sobre o rio Lugenda junto a Mussoma
Fotos recolhidas na internet ( de autor: desconhecido )



Boa tarde, amigo Fernandes.
Era minha intenção aproveitar o próximo fim de semana para começar a organizar e enviar de forma sistematizada a colaboração que te prometi para o blog.
No entanto, ao ler o texto com o título acima indicado, publicado no dia 02.06.2009, não resisti à tentação de adiantar desde já o que sei sobre o assunto.
Fica o aviso, para este caso e para casos futuros, que o que direi é " a minha verdade ", o que eu interiorizei e guardo na minha memória, que ainda não me deixa ficar mal! Por enquanto...
Apesar disso, fico receptivo a qualquer correcção vinda de alguém que, melhor informado do que eu, tenha uma versão diferente dos factos.
Mas vamos direitos ao assunto:
JOSÉ MARIA ALMEIDA VIEIRA, Alferes miliciano de Infantaria
nasceu em Abragão, concelho de Penafiel, tendo morrido no Niassa nas condições já referidas.
No entanto, há um factor muito importante que interessa lembrar e que mostra bem o espírito de dedicação e abnegação desse jovem e inditoso oficial.
Como saberão os operacionais melhor do que eu, a actividade do pessoal do pelotão que estivesse colocado no destacamento de Mussoma era, essencialmente, garantir a segurança da ponte sobre o rio Lugenda, pois esta tinha uma grande importância estratégica para a ligação com o nordeste do Niassa, até ao rio Rovuma, possibilitando as deslocações de pessoal e os reabastecimentos.
Isso não significa que não realizassem patrulhas de reconhecimento, de curta duração e com efectivos limitados.
Como todos se recordarão, o correio destinado ao S. P. M. 1544, o da C. CAÇ. 2707, ficava em Mecula, deixado pelo táxi aéreo da TAN ou da EMAC, pois a pista de Mussoma não estava operacional. Daqui resultava que o correio destinado ao pessoal do pelotão destacado em Mussoma só era entregue quando houvesse coluna de Mecula para Marrupa ou quando o pessoal de Mussoma vinha a Mecula reabastecer-se.
Sensibilizado por esta situação - e todos sabemos a ansiedade que passávamos à espera do correio - o Alferes Vieira, apesar de estar no fim da comissão, quis deixar em Mussoma melhores condições que aquelas que lá encontramos e "mobilizou" o pessoal militar e civil para a grande tarefa de capinar a pista de aviação. Pretendia, desse modo, que os próximos pelotões que fossem lá colocados já pudessem receber directamente o correio e os "frescos" que nos eram enviados.
Concluída essa tarefa, informou superiormente e pediu a vistoria à pista, para que pudesse ser aprovada e aberta à aviação civil e militar.
E foi num regresso do nosso Comandante do B. CAÇ. 2914, Major António Barata Alves, que vinha de uma reunião do Comando do Sector, então já em Vila Cabral - em 1970 ainda era em Marrupa - que pela primeira vez desde há muitos anos foi utilizada a pista de Mussoma, ainda só para ensaio.
Satisfeito com o trabalho, o Major Barata Alves perguntou ao Alferes Vieira se ele tinha participado numa operação junto ao Rovuma, onde existira um aldeamento clandestino da Frelimo, por nós destruído. Como a resposta foi afirmativa, o Major Barata Alves terá pedido ao Alferes Vieira para o acompanhar ao local na D. O., num voo de reconhecimento, pois constava em Vila Cabral que esse aldeamento estava novamente a ser utilizado.
Infelizmente para o Alferes Vieira, a informação que tinha o Comando do Sector confirmou-se e as consequências foram as que conhecemos e lamentamos.
Para concluir, só mais umas palavras: se o Alferes Vieira fizesse de Mussoma uma "colónia de férias" e estivesse quietinho, limitando-se a exercer as funções de rotina, não tinha lá ido o avião, não teria entrado nele e, provavelmente, ainda agora nos daria o prazer da sua companhia. Mas era um homem bom e altruista e foi vítima das suas qualidades.
Deus te tenha em descanso, ALFERES VIEIRA !

Sérgio de Jesus Rêpas
( Ex-Furriel Miliciano Enfermeiro da C. CAÇ. 2707 )

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Liga Mecula : as duas equipas

O verdadeiro "derby" de Mecula


Para aqueles que já não se lembram dos nomes:
Em pé, da esquerda para a direita:
furriéis: Almeida (sapador), Ramos (cripto), Antunes (mecânico), Martins (vagomestre) e o alferes Soares (cripto ).
Na primeira fila:
furriéis: Rolo (Pelrec), Rodrigues (Sapador), Castela (enfermeiro); soldado Telmo ( do bar ) e o furriél Ferreira (Fotocine).

Esta equipa de futebol é toda constituída por elementos da CCS do BCaç. 2914.