sexta-feira, 14 de agosto de 2009

As duas faces dos Rangers de Nantuego !




Aquela imagem de quem não brinca em serviço.
As camisolas brancas sempre à vista... como que dizendo: Quem se meter connosco leva forte e feio !

O alferes Morais, nesta foto equipado a rigor e na foto de baixo vestido com a fatiota de saída, representa bem essa "dupla" face dos Rangers de Nantuego.

Disciplinados por natureza, cultivavam a estratégia de estar de bem com as populações locais... grande espírito de sacrifício e de um rigor operacional extremo.



Aqui estão eles, todos charmosos, estão de saída... vão ao aldeamento do regulado de Nantuego !
O Figueiredo (de óculos) é um verdadeiro diplomata, tinha uma grande sensibilidade para lidar com pessoas de outras culturas, concerteza prometeu aos colegas que os levava a um jantar na casa do Régulo !
Eram assim os Rangers de Nantuego... na hora do lazer vestiam a melhor fatiota para conviver com as populações.

Para aqueles que já não se lembram dos nomes: O Zé da Avó, Figueiredo, Morais, Silva, Louro.

Este post é dedicado aos Rangers de Nantuego. Um abraço para eles.

As fotos são da colecção de Manuel Morais, contribuidor deste blogue.

O "lendário" CARLINDO !

Escrever a história de Mecula, do século vinte, sem falar do CARLINDO uma figura "lendária" da Serra Mecula seria um crime sem perdão.
Quem de vocês não conheceu o Carlindo? A resposta é obvia, todo o mundo se lembra do homem dos sete ofícios que era o Carlindo e a sua grande paixão por África.
O Carlindo começa a sua vida em Terras de Mecula (Mussoma) como cantineiro, aliás, foi sempre a sua actividade principal ao longo da vida. Aqui nesta foto manobra o batelão de atravessamento do rio Lugenda no ano de 1961.
A ponte do rio Lugenda não existia, aqui no blogue já fizemos referência que foi construída mais tarde pela CEng. 521.
Conhecemos o Carlindo em 1970, várias vezes fomos almoçar (tal como vós) ao "Restaurante Carlindo" de Mecula ou comprar elástico para as botas na sua tenda ao lado... mas é dos "safaris" nocturnos que eu tenho as melhores recordações do Carlindo.
E tantas histórias se podiam contar de um homem com uma paixão enorme por África que nos ensinava a viver no meio do mato com um mínimo de recursos disponíveis.
O Carlindo era a logística local do aldeamento, não consigo imaginar Mecula sem o Carlindo.
Quando era preciso levar alguém ao médico... lá ia o Carlindo. Quem levava o pão ao Micunde... era o Carlindo. Os cantineiros podiam ganhar dinheiro com as populações... mas na falta de outras estruturas sociais, não sei como se conseguem sobreviver sem eles.

Não resisto em deixar de vos contar a história da "perna de pau":
Um dia partiu-se um feixe de molas de uma viatura. O Carlindo vai connosco na coluna militar, então decide ser ele a resolver o problema. De imediato ordena aos seus empregados moçambicanos para cortarem um pau e fazerem uma corda com casca de árvore.
Colocado o pau no sitio da lâmina de molas e o conjunto amarrado com aquela corda... lá vai a viatura com perna de pau a rolar pela picada fora!
A criatividade latina, aliada à larga experiência africana, de um homem para quem a vida em África não tinha segredos, era capaz de arranjar soluções para as cenas mais incríveis.

Não sabemos se ainda é vivo... mas uma coisa é certa... figuras como o Carlindo nunca morrem... são imortais!
Esteja em que mundo estiver... Viva o Carlindo!

A foto do batelão faz parte da preciosa colecção de fotos históricas dos Pioneiros de Mecula, enviada ao blogue pelo nosso contribuidor - Francisco Vaz Lourenço.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

VILA CABRAL e LICHINGA

A cidade OCTOGONAL projectada pela Comp. de Engenharia 521.


LICHINGA moderna no Google Earth com o OCTOGONO de nascença.


A foto de Vila Cabral de 1965, foi uma contribuição de Irlando Tavares da CEng. 521

FINTAMOS uma Mina !

Houve sempre alguém que durante a guerra colonial (para o bem e para o mal), influenciou as decisões de terceiros e o resultado dessas decisões.
Este post é dedicado ao condutor Moreno (Campos) pela sua coragem que sempre demonstrou e pela importância que teve na história que vos vou contar.

Chegou a notícia a Mecula que tinha rebentado uma mina na picada de Mussoma / Mecula, havia feridos para evacuar e uma Berliet para rebocar.

O furriel mecânico Antunes pede ajuda, fomos com ele.
Nestas situações, perdia-se a cabeça, arriscava-se demasiado ninguém queria perder tempo (complexo de bombeiro) havia vidas para salvar.
Com alguma dose de irresponsabilidade à mistura, colocavam-se em perigo outras vidas.
Geralmente fazia-se REVIS de cima da Berliet, seguindo a continuidade das marcas dos rodados nos trilhos. Uma autêntica loucura.
Corremos ao encontro da coluna e "fintamos" uma mina!
Ao longo do trajecto fizemos vários desvios, sempre que havia dúvidas na falta de continuidade das marcas dos pneus.
No exemplo da figura anexa, ainda hoje não temos a certeza se o Moreno fugiu da poça de água ou se desconfiou da possibilidade de haver ali uma mina.

Chegados ao ponto de encontro das colunas, perguntamos pelos feridos.
Resposta: Já foram evacuados para Mussoma, agora vocês rebocam para lá esta viatura minada.
Perguntaram: Não encontraram mais minas? Como vieram?
Informamos o CMDT da coluna que fizemos vários desvios, a picada não estava limpa.
Ele disse-nos: Vamos picar uns kms agora já não temos pressa!
Ainda bem que o fizeram, passados poucos kms lá estava a mina junto à poça de água.
No nosso regresso a Mecula, ao depararmos com a cratera na picada... nem queríamos acreditar... meu Deus o Moreno tinha fintado uma mina!

Esta mina ficava "esquecida" se a coluna passa (pelos novo trilho) sem picar. Mais tarde podia fazer estragos... era uma mina relógio...mas não era uma mina de carretos.

Quando o Moreno não levasse galinhas (ele cobrava os fretes), é porque o povo (***) não quis ir com ele na primeira viatura.
Dizia o Moreno: Furriel, hoje não levo "malaco", mande picar vai haver minas!

O Moreno já faleceu, vítima de doença prolongada. Paz à sua alma.

(***)
( O teste ao povo era uma maneira eficaz de obter informações de última hora. Quando se negassem a subir para a rebenta minas, havia minas de certeza. Como era proibido viajar pessoas na primeira viatura... pelos motivos conhecidos .... passados poucos kms mudava-mos os passageiros para as outras viaturas. O teste já estava feito.)

Um texto de:
Ernesto Fernandes
Ex-furriel miliciano sapador do BCaç.2914

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A humilhação do Inimigo !


Viajando pelo trilho normal ou pelo meio da picada em corta_mato a mina rebentava sempre, estava preparada para matar muita gente...


A estratégia do Batalhão dos Rangers de Mecula ( BCaç. 2914) consistia em conquistar o apoio das populações. Para não as hostilizar só era permitido visitar o aldeamento com a farda de saída, como quem vai para uma festa.
Ao contrário quando saíam em serviço, os Rangers, vestiam os camuflados com as camisolas interiores de Rangers à vista...os lenços ao pescoço, e as fitas da HK_21 ao pescoço. Era aquela imagem do poder belicista absoluto. Quem se meter connosco, leva forte e feio. Durante dezoito meses, pensamos que resultou em pleno esta encenação.
Decide então a Frelimo fazer passar a mensagem às populações locais de que castigavam severamente todos aqueles que colaborassem com a tropa.
Assim se explica o ataque à bazucada ao Land Rover onde viajava o Aguenta Inglês (guia) e mais de uma dezena de mulheres e crianças. Foi o maior massacre, ali perto de nós! Catorze mortos.
Os homens da APSICO não perderam tempo, ao publicar o jornal Mtimbo, acusando a Frelimo de só atacar populações indefesas de mulheres e crianças. Foi a HUMILHAÇÃO do INIMIGO !
Óbviamente, não restava outra solução ao IN senão salvar a sua honra... e para isso teriam de dar uma resposta muito cruel e demonstrar às populações que não tinham medo da tropa portuguesa.

Esta "SUPER_MINA" era para matar muito militar e assustar quem ainda tivesse dúvidas.



Passado o cruzamento do Candulo, valeu-nos a atitude "rebelde" do condutor Melo em que se recusava conduzir o Pincha Mercedes no caso dos camaradas não picarem. O alferes Coelho (Sapador) ainda exitou, afinal não havia notícia de haver minas por estas bandas.
Já havia umas "bocas" que eles (IN) haviam de atacar... decidimos "democraticamente" começar a picar. Não havia pressa na missão, apenas se pretendia tirar a medida às tábuas da ponte do rio Incalaué.
Nos primeiros cinco quilómetros nada aconteceu. Segue-se a segunda equipa a do alferes Coelho que só andou cem metros e viu logo a "super_mina".
Inspecionado o local verificamos haver um rego cavado em direcção ao meio da picada. Tiramos de lá 38 petardos, enchemos um saco de lona e paramos de cavar.
Nas duas minas não mexemos, podiam estar armadilhadas.
Segui-se a detonação das minas de acordo com as regras de segurança.
Avançamos mais um km e de novo uma mina metálica anticarro.
Como não resultou esta operação da Frelimo, mais tarde fizeram a primeira e única EMBOSCADA junto á ponte de rio Incalaué na picada de Mussoma / Mecula para provar às populações que afinal não tinham medo da tropa. Houve alguns feridos.

Foi um mau serviço.... aquela acção dos homens da APSICO.... porque foram deitar gasolina no fogo. Não havia necessidade, estava tudo controlado !
Pela boca morre o peixe... podíamos ter morrido muito de nós !

O post é dedicado ao Melo, que "fez o milagre" de nos obrigar a picar. Um grande abraço para o Melo.

Um texto de:
Ernesto Fernandes
Ex- furriel miliciano sapador do BCaç. 2914

Minas de "RELÓGIO" ou de carretos ?



Tem-se falado muito de minas de "relógio" ou de carretos que só disparavam à passagem de certo número de viaturas. Nunca vi nenhuma, não sei se alguém fotografou alguma...
Tenho outra teoria.
Não faziam falta minas especiais, bastava coloca-las no terreno de forma inteligente e matreira.
Outras vezes éramos nós, que com o nosso desenrascanso ao viajarmos em corta mato fugindo dos trilhos normais, que deixávamos para trás "minas normais" nos trilhos e agora passavam a "minas esquecidas".
Também podia haver colocação de minas de forma inteligente, e quero acreditar que aconteceu várias vezes no meu tempo.
O Cardoso (condutor) morreu à sétima passagem, e o Cardoso (mecânico) morreu depois de terem passado mais de trinta viaturas. São estes dois casos que nos fazem meditar...

Com o detector magnético os homens varriam uma largura maior da picada, mas a andar a 4 a 5 km hora não podiam varrer muito.
Só depois de encontrar uma mina é que se baixava a velocidade de trabalho e a limpeza era maior. Com as PICAS de verga de aço era "sempre a abrir", praticamente só limpavam o trilho.

Geralmente o IN desenhava o rodado com resto de pneus rebentados... um dia encontrei uma mina com desenho de pneu chocolate... quando o rodado da ultima viatura que passou no trilho era zigzag. Se calhar fizeram o serviço de noite, só tinham aquele carimbo.
Vimos a mina a 5 metros de distância... a nossa experiência já era grande.
Então uma mina colocada fora do trilho, a terra podia ser alisada que ninguém desconfiava..
Qualquer condutor menos disciplinado no fim de coluna podia rebentar uma dessas minas estratégicas ou esquecidas.
Agora reparem como era fácil passar despercebida uma mina fora do rodado... quando se fazia apenas REVIS do cimo da Berliet seguindo a continuidade do rodado!
Nos próximos posts, vou dar dois exemplos concretos para justificar esta teoria!

Um texto de :
Ernesto Fernandes
Ex- furriel miliciano sapador do BCaç. 2914