sábado, 27 de fevereiro de 2010

A história do QUARTEL NOVO de Mecula


OS TESTEMUNHOS:
Fernando Pereira, ex-1º cabo rádiotelefonista da CCS do BART 639, disse o seguinte:  
Aqui estou, para dizer que pertenci à CCS do BART 639, que esteve em Marrupa, de Agosto 1964 a Outubro 1966.
A CART 636, inicialmente (em ABR.64), ficou colocada em MALEMA e em 09/08/64, veio para junto de nós, (CCS, do BART 639).
Ao ver aqui, neste blogue, as imagens dos batelões do Lugenda, fez-me recordar o longínquo dia 08/12/1964 em que atravessei esse rio, num batelão para ir a Mecula, com regresso a Marrupa, no dia imediato. Fomos levar duas cargas de materiais de construção para o futuro quartel. Naquela data apenas estava ali destacado um pelotão da CART 636 utilizando as antigas instalações.
Mais tarde foi ali colocada toda a CART 636 onde permaneceu até OUT.66. (fim de citação)

Fernando Pereira, disse  também que:
As instalações do quartel de Marrupa, em 08/12/1964 (quando fui a Mecula), estam praticamente concluídas. Em 04/11/1964, havíamos ocupado as casernas novas (deixando as tendas). O refeitório estava pronto, restando, ali e acolá, alguns acabamentos menos vultosos.
Os materiais de construção, levados para Mecula, eram essencialmente, madeiras de cofragens, barrotes de escoramento e pranchas, que haviam sido usadas nas obras do nosso aquartelamento de Marrupa e que se destinaram a serem re-utilizadas nas obras do novo quartel de Mecula e, eventualmente, outros artigos que não recordo.(fim de citação)
Fernando Pereira, descreve aqui a sua viagem a Mecula , o texto integral está no arquivo da Serra (faça o link clicando com o rato)

Fernando Pereira, diz mais:
Por um amigo, "Tino", foi-me confirmado que fez parte do primeiro pelotão da CART 636 que foi destacado para Mecula... e que foram então ocupar as instalações existentes na Serra de Mecula.
Com a ida de toda Companhia para Mecula (Jun.65), esta ficou instalada em "palhotas" improvisadas, na encosta da serra. Entretanto, já haviam sido iniciadas as obras do novo quartel, por uma Companhia,de Engenharia (CENG), cujo nome não recorda.Tais obras, vieram a ficar concluidas em finais de 1965.
Nesta conformidade, à data de 08/12/1964, os materiais de construção que para ali foram levados, em que participei, comprovam que as obras do novo quartel já se tinham iniciado. (Cheguei a Mecula de noite (lembro-me que dormimos num barracão sobre esteiras) e parti de madrugada, depois de um pequeno almoço ligeiro no refeitório) não deu para eu ver, claramente, a situação actual.(fim de citação)



José Rocha ex-sapador da CCS do BART 639 com sede em Marrupa, diz-nos o seguinte:
Fui Sapador, da CCS do BART 639 que esteve em Marrupa entre Agosto de 1964 até Outubro de 1966.
Passei alguns meses em Lugenda e depois estive dois a três meses em Mecula.
Em Lugenda, quando cheguei, estava lá um segundo Sargento e um 1º cabo, ambos da arma de Engenharia. Havia uma barraca de palha onde dormia-mos e comia-mos. Havia também um rádio para comunicar com o exterior num posto de telefonista. Era esse sargento que todos os dias comunicava com Marrupa e com outras companhias.
Quanto ao nosso trabalho, era fazer guardas e reforços ao acampamento. Durante o dia quando era preciso, juntamente com esse 1º cabo de engenharia faziamos travessias quando elas eram precisas com os batelões de Lugenda - Mecula ou vice versa.
Depois mais tarde, fui para Mecula tomar conta de um grupo de moçambicanos onde me pediram para com eles fazer uma grande palhota que tinha sido pedida pelo Admistrador de Mecula ao Capitão Faia Correia da Comp. 636 que já estava lá.
Essa palhota era para arrecadação da Administração que ficava mesmo no sopé da Serra do lado direito da picada.
A nossa companhia trazia-me o almoço e o jantar. O sargento de dia vinha-me lá buscar no jipe de serviço.(fim de citação)

Irlando Tavares, ex-furriel desenhador da Comp. Engenharia 521, disse o seguinte:
Os quartéis de Mecula e Marrupa eram da responsabilidade do Batalhão de Eng. de Nampula, cujo responsável em Mecula era o capitão de engenharia - Carreira, no entanto para o quartel de Marrupa a supervisão era do nosso capitão Barroco (actualmente general na reserva).(fim de citação)

Uma foto enviada por Irlando Tavares, na praia do Lugenda, ao lado de elementos da CART 636.
DATAS e FACTOS HISTÓRICOS:
O Bart 639 mudou-se de Nova Freixo para Marrupa em Agosto de 1964.
A Cart 636 saiu de Malema e chegou a Marrupa em 9 de Agosto de 1964.
A Cart 636 colocou tropas nos destacamentos de Mecula, Gomba e Chamba.
Em 4 de Novembro de 1964 começaram a ser utilizadas pelo BART 639 as casernas do aquartelamento novo de Marrupa.
A partir de 1964 as travessias do Lugenda, para além do batelão do “Almirante Carlindo” ... passaram também a fazer-se nos barcos de borracha da Engenharia militar.
Em 8 de Dezembro de 1964 chegaram os materiais de construção ao estaleiro de obras do novo quartel de Mecula.
Em Junho de 1965 a CART 636 instalou a sua sede em Mecula.
Um sapador da CCS do BART 639 participou na mudança de instalações da Administração de Mecula para o sopé da serra.
Em finais de 1965 ficaram prontas as instalações do QUARTEL novo de Mecula.
A capela de Santa Bárbara foi inaugurada em 1966.


Está assim desvendado o “mistério”, da data de construção, do  novo aquartelamento  de Mecula onde todos nós Visitantes da Serra vivemos parte das nossas vidas.
Não deixa de ser interessante, que este aquartelamento tenha tido como primeiros inquilinos uma companhia de artilharia (CART 636) e cerca de dez anos depois foram (???) também as tropas de um Batalhão de Artilharia - (BART 3887) - os últimos inquilinos a quem coube a missão de fechar as portas da guerra.


Novos factos: Ler o post - As ÚLTIMAS SENTINELAS

Um texto de:
Ernesto Penedones Fernandes
Ex- furriel miliciano sapador do BCaç. 2914

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O Aldeamento antigo de Mecula


Não devia haver própriamente um aldeamento em Mecula. O povoamento do território moçambicano não contemplava os aldeamentos tal como nós os conhecemos. As populações construíam as suas habitações junto das machambas, quando muito os vizinhos eram pessoas da mesma família.

Os Aldeamentos são uma "invenção" dos militares. Foram construídos na tentativa de garantir o controlo e a segurança as populações durante a "guerra colonial".
Os denominados movimentos de libertação aproveitaram-se da indignação das populações  locais e batizaram os novos aldeamentos de "campos de concentração".
Óbviamente, as pessoas estavam habituadas a viver em plena liberdade sentiam-se agora limitadas nos seus movimentos e liberdades, vai daí o constrangimento que o aldeamento para elas representava. Não foi fácil a sua implementação.
O Aldeamento é uma forma de organização social que cria novos valores culturais e reforça o sentimento comunitário de viver em grupo mais alargado (bairro, aldeia, cidade).
O ordenamento do território em Aldeamentos, permite ao Estado fornecer os serviços  básicos para a satisfação das necessidades primárias tais como: o fornecimento de água potável, as redes de esgotos, a distribuição de energia (electricidade) e das comunicações (telefone),  prestação  de cuidados de saúde e educação (escola).
A sociedade civil também aproveita o aldeamento para instalar as lojas comerciais (cantinas) e as oficinas artesanais de prestação de serviços e os mercados feira.

O único inconveniente é apenas a limitação do espaço urbano que cada um pode ter para construir a sua habitação. Um problema que não tinha quando construía a sua habitação (palhota) e as  instalações para os animais domésticos no meio da machamba.

Por mais estranho que possa parecer, são os mesmos dirigentes políticos que outrora condenavam os Aldeamentos quem tem  estado a promover a sua construção !
Numa sociedade moderna da qual se espera que satisfaça as necessidades das pessoas, os aldeamentos são um bem necessário. 
Ainda bem que as autoridades moçambicanas, assimilaram depressa o conceito !

Um texto de:
Ernesto P. Fernandes
Ex-furriel miliciano sapador do BCaç. 2914 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Aqui nasceu Mecula

Esta foto é mais uma verdadeira RELÍQUIA para ilustrar a história de Mecula. Aqui nasceu Mecula,  foi aqui que os Heróis da Serra Mecula lutaram contra o invasor alemão.
Foi aqui o primeiro AQUARTELAMENTO das nossas tropas desde o ano de 1961 - (Pioneiros de Mecula) - até à chegada da CART 636 em Junho de 1965.
Foi aqui onde esteve Henrique Galvão no ano de 1948 !
Este local, hoje em ruínas, é o verdadeiro Centro Histórico de Mecula !

A foto é uma contribuição de:
Fernando Pereira, ex-1º. cabo radiotelefonista da CCS do Bart 639

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Construções novas em Mecula

Uma vivenda na avenida principal de Mecula - (foto de 2009)


 
Uma Mesquita moderna, algures em Mecula - (??) - (foto recolhida na internet).

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O Feiticeiro de Gomba

 Tába-Tába com os militares da CCaç. 1653 e alguns elementos da população de Gomba.


Corria o ano de 1967... ( ler a história completa no Arquivo da Serra).

Em Gomba, zona em que me encontrava na altura, quando começaram a desmatar o terreno escolhido para a construção de um desses aldeamentos, surgiu um obstáculo que não estava previsto: Um enorme imbondeiro, (seis homens de mãos dadas, não o conseguiam abraçar; era necessário entrar um sétimo), “recusava-se” a cair. O chefe daquela zona (Régulo???) conhecido entre os militares por “Grande Chefe Tába-Tába”, andava há já uns dias com uma equipe de 20 ou 25 homens a tentar derrubar o “monstro”, sem o conseguir.
O comandante da minha companhia, perguntou-me se eu conseguia fazê-lo, utilizando explosivos. Respondi de imediato que sim, só que não teria a certeza da quantidade necessária para o fazer.
Para que a operação resultasse, pedi que me abrissem 4 buracos a toda a volta da árvore, onde coubesse um punho. Em cada um desses buracos, meti o explosivo, ( Cargas atacadas ), ligados entre si por cordão detonante. Pronto que estava para executar a parte final do meu trabalho, pedi que todo o pessoal se abrigasse e, como mandam as regras, escolhi o sítio onde me iria abrigar após dar início à combustão do rastilho. Para lá levei o Tába-Tába que estava admirado com aquele aparato. Depois de toda a gente abrigada, dirigi-me para o imbondeiro, a fumar pacatamente e, em chegando lá, com o cigarro, inicio o rastilho.
É indescritível a visão do que sucedeu naqueles segundos. Mesmo eu fiquei admirado com o resultado. A meu lado, o Grande Chefe Tába -Tába tinha os olhos que parecia querer saltarem das órbitas; não queria acreditar no que estava a ver.
Fui um privilegiado pois, a partir dessa altura, tinham-me um respeito (medo) ou (?!?!?!) que eu podia, mesmo que fosse de noite, andar desarmado que ninguém me tocava com um dedo que fosse.
Constava por toda a zona que o Furriel Pires tinha "XICUEMBO” que significa “feitiço”, segundo me disseram em dialecto Changana.

Um conto de:
Domingos Azenha Pires
Ex-furriel miliciano da CCaç. 1653 do BCaç. 1906

domingo, 7 de fevereiro de 2010

As travessias do Lugenda

 
O transporte do "petróleo" no "catamaran" do Carlindo.



Os Pioneiros de Mecula (pelotão da CCaç. de Marrupa ).



O "almirante" do Lugenda, era o cantineiro Carlindo.



 
Os militares da CART 1595 que estiveram em Mecula.


Segundo o que consta na III parte, publicada no Livro do Batalhão de Caçadores 1906, ficamos a saber o seguinte:

No dia 8 de Março de 1967 começaram as CCAÇ 1653 e CCAÇ 1655 a sua viagem para Mecula, mas em virtude da falta de ponte no Rio Lugenda a travessia foi morosamente feita em batelão e assim, a CCAÇ 1655, com toda a sua impedimenta, só conseguiu chegar àquela localidade passados oito dias, depois de acampar nas margens do grande rio onde os pirilampos, as aves que assobiam e os animais selvagens causaram alguns sustos e fizeram sentir aos «novos» que estavam no «mato» - (fim de citação).

Para saber (+), sobre o BCaç. 1906, pode ler no Arquivo da Serra.